Os núcleos de duas galáxias em processo de fusão podem ser vistos no topo da imagem. A brilhante cauda azulada que surge no meio das duas é composta de várias estrelas recém-nascidas. Esta é a imagem que se tem atualmente da ARP-274, do grupo NGC 5679, um grupo de galáxias, cujas forças gravitacionais estão levando uma de encontro às outras.
As galáxias estão começando a interagir. A maior parte de suas espirais ainda está intacta, mas, há evidência que nuvens de gás dentro de cada uma formam um enorme número de novas estrelas e de agrupamentos de estrelas, além de muita poeira.
Similarmente na matriz energética brasileira dois mundos estão próximos de um processo de fusão: i) o setor de açúcar e álcool (16,4% da matriz energética em 2008, consolidou a segunda posição entre as principais fontes de energia primária no Brasil, atrás apenas do petróleo e seus derivados); ii) setor elétrico nacional (13,8% da matriz energética em 2008). A estrela recém-nascida é a bioeletricidade da cana (menos de 4,8% da matriz elétrica nacional em 2008), com promessa de ativar forças gravitacionais que estão levando estes dois mundos um de encontro ao outro.
O primeiro (biomassa) focado no mercado nacional e internacional, o segundo majoritariamente no nacional. São negócios diferentes: commodities x infraestrutura. Tem clientes e riscos diferentes. Seus processos produtivos têm forte relação entre açúcar & álcool e cogeração. Os níveis de investimento e respectivas receitas são heterogêneos. A cada dia que passa novas oportunidades são abertas com projetos competitivos com tecnologia nacional que tendem a avançar em eficiência. Novos negócios são desenvolvidos na indústria da cogeração de energia (em toda a cadeia) com introdução de novas tecnologias. A questão de segurança energética (ampliando o uso de fontes renováveis, menos poluentes e menos suscetíveis às crises internacionais), e a agroenergia se transformaram em um novo paradigma agrícola mundial.
Incentivos regulatórios e benefícios fiscais proporcionam tarifas competitivas para a bioeletricidade. A procura por projetos está mais aquecida com investimentos de longo prazo e capital estrangeiro vinculador a TIR adequadas. Estabilidade econômica, regulatória e política garantindo as metas suportam investidores de diferentes tamanhos.
Cresce a confiança na comercialização nos dois ambientes de comercialização no Brasil: i) ACL - venda no mercado livre, incentivado ou autoprodução; ii) ACR - venda nos leilões públicos do mercado regulado.
Porém, além das novas estrelas no cenário energético, sobra muita poeira: demandam novas políticas públicas que garantam que a atual tendência de matriz limpa não vai mudar em função do pré-sal, com estímulo para maior uso do gás natural, deixando o setor sucroenergético em uma posição desconfortável. Permanecem os desafios ambientais de aumento de eficiência produtividade, tecnologias poupadoras de insumos e de eliminação ou mitigação de impacto ambiental, com aproveitamento integral da energia da planta de cana-de-açúcar, com mesma área plantada.
O desenvolvimento da geração a biomassa depende das políticas do Governo: programa de leilões periódicos, conexão, incentivos, financiamentos.
Novas estrelas estão surgindo com elevado potencial remanescente para geração de eletricidade, principalmente decorrente da utilização de novas tecnologias (resíduos agrícolas, florestais e madeireiros, pinus, eucalipto, capim elefante, etc.).
A geração elétrica com biomassa residual requer criterioso gerenciamento dos riscos de indisponibilidade do combustível.
Maior credibilidade por parte da classe industrial deverá carrear investimentos de longa maturação na bioeletricidade.
O crescimento do uso energético da cana-de-açúcar, associado à energia hidráulica na matriz energética brasileira, sustenta no longo prazo, uma proporção de fontes renováveis que a coloca entre as mais limpas do mundo. Mais do que uma união estável entre o setor de açúcar e álcool com o setor de energia elétrica a bioeletricidade da cana molda um novo cenário na matriz energética nacional.
Decio Michellis Jr
Assessor técnico da Vice-presidência de Engenharia e Meio Ambiente
da Rede Energia e diretor de energia do Departamento de
Infraestrutura da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo
(FIESP).